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DESIGN E FEMINISMO


Março é um mês de visibilidade para a luta das mulheres, um mês para lembrar que ainda hoje, 2019, a desigualdade permanece. Recentemente lendo um artigo sobre a pesquisa de uma amiga referente aos resultados de 10 anos das cotas raciais na UnB, me deparei com um dado que me chocou: "Mulheres cotistas que não são admitidas para a UnB recebem maiores retornos monetários no mercado de trabalho do que as que cursam a UnB, pelo menos no período de até cinco anos após formatura."1 Para a mulher, nenhum esforço é valorizado! Haja Luta!

Quis usar este espaço para falar sobre essa nossa luta e sobre o trabalho da mulher Designer. Hoje o movimento Ladies, Wine & a bit of Design, criado por Jessica Walsh em Nova York, em 2016, traz o ativismo para o campo do Design e tem ganhado o mundo, já são 120 cidades participando. São encontros mensais para falar de vários assuntos do universo feminino na criação além de criar uma rede de apoio e mentoria do trabalho umas das outras. Brasília também faz parte desse movimento que reúne incentiva e valoriza as mulheres criativas e é promovido pela plataforma Comequetalá, vale a pena conferir!

Mas em uma leitura sobre ativistas brasileiras descobri a história da vida de Carmem Portinho. Uma mulher a frente de seu tempo, que lutou incansavelmente pelo lugar da mulher no mercado de trabalho e também foi peça fundamental na construção da história do Design no Brasil. Como forma de enaltecer e homenagear a força feminina conto aqui um pouco da biografia dessa mulher fascinante.

Carmem Portinho nasceu em Corumbá no antigo estado do Mato Grosso em 1903, filha de uma Boliviana com um Gaúcho. Com 14 anos mudou com a família para o Rio de Janeiro e logo entra no movimento feminista. Sufragista, em 1919 militou com Bertha Lutz e outras mulheres pelo voto feminino, sendo fundadora e vice-presidente da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (FBPF).

Terceira mulher no Brasil a concluir uma graduação em Engenharia, na Escola Politécnica da antiga Universidade do Brasil, lutou incansavelmente pela igualdade de gênero. Ativista pela educação de mulheres e pela valorização do trabalho feminino, criou a União Universitária Feminina (UUF). Militante, participava ativamente de congressos pelo Brasil, como o 2º Congresso Feminista, que aconteceu no Rio de Janeiro em 1931, neste congresso representando a UUF, Portinho defendeu a inserção das mulheres no mercado de trabalho em condições de igualdade. Anos mais tarde, foi escolhida para representar o Brasil no Congresso da Liga Internacional Feminista pela Paz e pela Liberdade (WIFLP — Women’s International League for Peace and Freedom); a liga existe até hoje.  

Recém formada foi nomeada engenheira-auxiliar pela prefeitura do então Distrito Federal e ao mesmo tempo professora no tradicional Colégio D. Pedro II. Suas nomeações em ambas instituições causavam desagrado pelo simples fato de ser mulher. Até o Ministro da Justiça, tentou interferir para retirá-la do cargo de professora, pois o D. Pedro II era uma escola para homens, mas Carmem resistiu e seguiu lecionando na escola por mais 3 anos. Como engenheira logo em seu primeiro dia de trabalho, enfrentou o machismo de seu superior, que pediu a ela que vistoriasse o para-raios do prédio da prefeitura, certo de que ela não conseguiria cumprir a missão. Carmem, no entanto, tinha treinamento em alpinismo, tendo escalado todos os morros do Rio de Janeiro quando era estudante, cumprindo assim a tarefa com facilidade. Deste dia em diante adota calças como seu uniforme de trabalho causando e lançando moda. Em 1937, funda a Associação Brasileira de Engenheiras e Arquitetas (ABEA) com o objetivo de valorizar e incentivar mulheres a ingressar no mercado de trabalho.
Em 1939 concluiu uma pós-graduação em Urbanismo, tornando-se a primeira urbanista brasileira, com a tese “A Construção da Nova Capital do Brasil no Planalto Central”. Em seguida conquistou uma bolsa de estudos pelo Conselho Britânico para estagiar em comissões de reconstrução e remodelação das cidades inglesas destruídas pela guerra. Sua experiência no exterior e contato com toda a efervescência da Europa no pós guerra a fez voltar e sugerir a implantação de um Departamento de Habitação Popular na capital, departamento este que dirigiu por muitos anos. Carmem foi pioneira no Brasil no conceito de habitações sociais. Em parceria com Afonso Eduardo Reidy, seu marido, idealizou e comandou a obra do primeiro Conjunto Habitacional Popular conhecido como Pedregulho. Fugindo das construções isoladas em blocos ou de casas individuais, preocupou-se com as questões sociais e com a questão da habitação e bem-estar da mulher. Inovou neste projeto que é até hoje referência de urbanismo e arquitetura, tal feito lhe proporcionou projeção nacional e internacional.
Em 1950 após sua aposentadoria da prefeitura do Rio de Janeiro, assumiu a diretoria do MAM - Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e em seguida, novamente em parceria com Reidy, idealizou e realizou a construção do museu. Criou o Atelier de Gravura, escola que formou uma geração de artistas, pensou o que para alguns historiadores seria a semente do Ensino do Design no Brasil que era a fundação da Escola Técnica de Criação, mas por falta de apoio o projeto é engavetado. Em seu trabalho no MAM, Carmem foi responsável por trazer a vanguarda da arte mundial para Brasil através de inúmeras exposições e cursos promovidos no museu.  
Em 1962 a Escola Superior de Desenho Industrial (EsDI), é fundada e se torna uma experiência pioneira no país, em um momento de otimismo e desenvolvimentismo do governo da Guanabara, que pretendia colocar o estado na vanguarda do processo industrial brasileiro. Em 1967 Carmen é convidada para assumir a EsDI, durante os anos de chumbo, foi uma grande dama protegendo a EsDI e seus alunos, e também se protegendo contra  a opressão que calou também o movimento feminista. Dirigiu a EsDI até 1987, quando a UERJ assume a instituição. Neste mesmo ano, é convidada a trabalhar no Centro de Tecnologia da UERJ, como consultora, onde trabalhou por mais 10 anos, até sua aposentadoria aos 95 anos.
Homenageada pelo Conselho Nacional dos Direitos da Mulher por sua luta pelos direitos das mulheres em 1987, foi escolhida para entregar nas mão do então presidente da Câmara dos Deputados, o deputado Ulisses Guimarães, a Carta das Mulheres aos Constituintes.
Carmem Portinho faleceu, em 25 de julho de 2001, aos 98 no Rio de Janeiro.
Numa época em que se busca mostrar o poder da mulher e sua contribuição nas diversas áreas do conhecimento, Carmen Portinho nos inspira. Professora, Engenheira, Urbanista, fez a diferença para Engenharia, Arquitetura, Arte e para o Design no Brasil e principalmente para a luta das mulheres por igualdade.  Seguimos lutando!
Notas:
1 Francis-Tan, A. and Tannuri-Pianto, M. 2018. "Black Movement: Using discontinuities in admissions to study the effects of college quality and affirmative action." Journal of Development Economics, 135: 97-116.
Este texto foi baseado no artigo: Carmen Portinho: engenheira da prefeitura do Distrito Federal, difusora do urbanismo e uma feminista avant-garde; publicado por: Rachel Coutinho M. da Silva Ph.D. pela Cornell University. Professora Titular do Departamento de Urbanismo e Meio Ambiente da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Docente Permanente do Programa de Pós-Graduação em Urbanismo pela mesma instituição; na Revista do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro.


Sou Angélica Lira, mãe do Guido e da Letícia, Designer Gráfica autônoma, formada na UnB, com Pós graduação em Design Estratégico no IED/IESB e também com formação em Pedagogia Waldorf pela 4º turma do curso de Formação em Pedagogia Waldorf de Brasília.



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